Ele passa quase o dia inteiro deitado: depois de uma cirurgia, de uma hérnia, ou porque a idade já não deixa levantar como antes. E um dia, ao fazer carinho no quadril, você sente uma pele diferente. Avermelhada, sem pelo, às vezes já aberta.
É uma escara, ou úlcera de pressão. Ela se forma sempre nos mesmos pontos do corpo, e um estudo veterinário mediu, com um tapete sensor de pressão, quanto o tipo de superfície muda a carga sobre esses pontos.
Fonte: Caraty, J. et al. "Comparison of the different supports used in veterinary medicine for pressure sore prevention." Journal of Small Animal Practice, 2019.
Cuidar de um cão que já não levanta sozinho é um trabalho de tempo integral. Tem o remédio no horário, a água que precisa ir até ele, o xixi que escapa, a noite que se interrompe para ver se está tudo bem. E, no meio disso tudo, uma ferida aparece num lugar em que você nem estava olhando.
Se isso aconteceu, a primeira coisa a saber é que não é descuido seu. A escara é uma das complicações mais conhecidas de qualquer paciente que passa muito tempo deitado, seja um cão ou uma pessoa. Ela pode surgir mesmo com muito carinho e atenção, porque nasce de uma coisa que ninguém vê: pressão constante, no mesmo ponto, por horas.
A segunda coisa é que a escara é, em grande parte, prevenível, e as que já começaram costumam responder bem quando a causa é tirada. Isso depende de três pontos que se encaixam, um levando direto ao outro: entender por que a pele se rompe, mudar o que acontece com o corpo ao longo do dia, e mudar a superfície onde ele passa essas horas.
Toda escara aberta precisa ser avaliada. Procure atendimento logo se a ferida estiver funda, com secreção, mau cheiro, área escura ou crescendo, ou se o cão tiver febre ou parar de comer. Escaras podem infeccionar e chegar ao osso. Não use pomadas, açúcar ou receitas caseiras na ferida sem orientação.
Não é a ferida que aparece de repente. É a pele que ficou horas sem sangue.
Quando o cão fica deitado, o peso do corpo empurra a pele contra o chão justamente onde há osso logo embaixo e pouco músculo ou gordura para amortecer: o ombro, a ponta do quadril, o cotovelo, o lado do joelho, o calcanhar. Nesses pontos, a pele fica espremida entre o osso e a superfície.
Pele espremida é pele com o sangue bloqueado. Se a pressão dura pouco, o sangue volta quando o cão se mexe, e nada acontece. Se dura horas, sem alívio, o tecido começa a morrer por falta de oxigênio, de dentro para fora. Por isso a escara muitas vezes já é maior por dentro do que parece por fora.
Título original: "The greyhound dog as a model for studying pressure ulcers"
Os pesquisadores descreveram por que os galgos são particularmente sujeitos a úlceras de pressão: conformação angulosa, pelo curto e pele fina. No modelo que desenvolveram, a gravidade da lesão dependia de dois fatores controláveis: quanto acolchoamento havia e por quanto tempo a pressão durava.
Esses dois fatores, acolchoamento e tempo, resumem a prevenção inteira. E os traços que deixam o galgo vulnerável ajudam a reconhecer quem corre mais risco em casa: o cão magro, o idoso que perdeu músculo, o de pelo curto, o que tem os ossos do quadril e do ombro marcados sob a pele.
Escaras aparecem até em pacientes internados, com equipe cuidando 24 horas. Elas surgem porque o cão não consegue fazer sozinho o que um animal saudável faz o tempo todo sem perceber: mudar de posição. Você não falhou; o corpo dele perdeu esse movimento, e agora o cuidado precisa fazer por ele.
Se a escara nasce de pressão somada a tempo, a pergunta deixa de ser "o que passar na ferida" e passa a ser outra: como tirar a pressão desses pontos ao longo do dia, e como manter essa pele em condições de resistir?
Mude o corpo de lado... e mantenha a pele seca, limpa e vigiada
É aqui que a primeira lição vira rotina. Se o problema é a pressão contínua no mesmo ponto, o primeiro remédio é interromper essa continuidade: o cão que não se vira sozinho precisa ser virado. E, como a pele já está sob carga, tudo o que a enfraquece (umidade, urina, sujeira) acelera a lesão.
O cuidado com a pele não é detalhe estético. O consenso de especialistas do American College of Veterinary Internal Medicine sobre hérnia de disco, uma das causas mais comuns de cão que fica dias deitado, lista entre os componentes centrais do tratamento sem cirurgia justamente a prevenção e o tratamento das lesões de pele e das úlceras de decúbito, junto com o controle da incontinência.
Título original: "ACVIM consensus statement on diagnosis and management of acute canine thoracolumbar intervertebral disc extrusion"
O painel de oito especialistas define como componentes centrais do tratamento clínico a restrição de atividade, o controle da dor, o tratamento da incontinência por retenção e a prevenção e o tratamento de lesões de pele e úlceras de decúbito. O documento também registra que esses cuidados ainda foram pouco estudados de forma rigorosa, o que torna a rotina em casa ainda mais importante.
Quatro hábitos para o cão que passa o dia deitado
Virar de lado com frequência: alterne lado direito, peito (deitado de barriga, se ele tolerar) e lado esquerdo, no intervalo que o veterinário indicar. Olhar a pele todo dia: passe a mão e olhe ombros, quadril, cotovelos, joelhos e calcanhares; vermelhidão que não some depois de alguns minutos sem pressão é o primeiro sinal. Manter seco: limpe e seque logo após escapes de urina ou fezes; pele úmida rompe mais fácil. Comida e água em dia: pele mal nutrida cicatriza mal; converse com o veterinário sobre a dieta.
Algumas dúvidas aparecem sempre:
Escara em cachorro tem cura?
Na maioria dos casos, sim, especialmente quando é tratada cedo e a pressão sobre o ponto é eliminada. Escaras profundas podem levar semanas para fechar e, às vezes, precisam de procedimento. Enquanto o cão continuar apoiando o peso sobre a ferida, ela tende a não cicatrizar, por isso o tratamento sempre inclui mudar a forma como ele fica deitado.
De quanto em quanto tempo devo virar meu cachorro?
O intervalo deve ser combinado com o veterinário, conforme o estado do cão. O estudo sobre superfícies de apoio concluiu que mesmo um bom colchão não basta sozinho para manter a pressão segura nas zonas de risco, e por isso recomenda mudanças de posição frequentes, principalmente em cães magros.
Por que a escara aparece mesmo com a cama limpa?
Porque a causa principal não é sujeira, é pressão somada a tempo. Limpeza e pele seca ajudam a pele a resistir, mas não tiram a carga dos pontos ossudos. É a combinação de mudar de posição e de uma superfície que distribua o peso que reduz essa carga.
Mas há um limite claro para o que a mudança de posição consegue fazer. Entre uma virada e outra, o cão continua horas sobre a mesma superfície, e a noite inteira, quando ninguém está acordado para virá-lo. A pergunta então deixa de ser só sobre o que você faz com o corpo dele, e passa a ser sobre o que está embaixo dele o tempo todo.
Tire a pressão onde ela nasce: na superfície em que ele passa as horas entre uma virada e outra
É aqui que os dois primeiros pontos se encontram. A escara nasce da pressão concentrada nos pontos ossudos por tempo demais (pilar 1), e a mudança de posição só interrompe essa pressão de tempos em tempos (pilar 2). O que acontece entre uma virada e outra depende da superfície. E essa diferença foi medida.
Título original: "Comparison of the different supports used in veterinary medicine for pressure sore prevention"
Três cães (cadáveres, de tamanhos parecidos e com diferentes escores corporais) foram colocados deitados de lado sobre quatro superfícies: manta no chão, colchão comum, colchão veterinário de espuma viscoelástica e colchão hospitalar humano de viscoelástica. Um tapete sensor mediu a pressão em cada ponto de contato por 4 horas. Em todos os casos, ombro, ponta do quadril e 13ª costela foram as zonas de risco. Nelas, os colchões de alívio de pressão registraram pressões menores do que o colchão comum e a manta no chão. As maiores pressões apareceram nos cães magros.
O estudo é pequeno e feito em cadáveres, o que significa que ele mede a física da pressão, e não o resultado clínico. Mas a física é exatamente o ponto: a mesma posição, sobre superfícies diferentes, produz cargas diferentes nos mesmos pontos ossudos. A manta dobrada no chão, que muita gente usa porque é fácil de lavar, ficou entre as piores opções.
Na prática, a superfície que ajuda tem três características. Precisa ser espessa e densa o bastante para que o quadril e o ombro não cheguem a tocar o chão através dela; uma espuma macia demais "toca o fundo" exatamente nesses pontos. Precisa ser grande o bastante para o cão ficar deitado de lado, esticado, sem que parte do corpo fique na borda ou no piso. E precisa ter capa lavável, porque a pele seca é metade da prevenção, como vimos no pilar 2.
Os próprios autores concluíram que colchões estáticos de alívio de pressão, em geral, não bastam sozinhos para manter as pressões seguras (abaixo de 60 mmHg) nas zonas de risco, sobretudo em cães magros. Uma boa superfície reduz a carga, mas não substitui a mudança de posição nem o acompanhamento veterinário de uma ferida já aberta.
A cama não substitui virar o cão de lado. Mas trabalha nas horas em que ninguém está acordado para virá-lo.
Uma superfície melhor não substitui o que o pilar 2 pede, que é mudar de posição e cuidar da pele. Mas age sobre o mesmo mecanismo do pilar 1, a pressão concentrada nos pontos ossudos, e continua agindo de madrugada, entre uma virada e outra, quando todo o resto da rotina está parado.
A escara começa por dentro, antes de aparecer
Como o tecido sofre primeiro nas camadas profundas, a vermelhidão que você vê hoje pode ser o sinal de uma lesão que já está maior por baixo. Cada noite sobre o chão duro ou uma manta fina soma mais horas de pressão sobre os mesmos pontos. Por isso a hora de mudar a superfície é quando o cão começa a passar o dia deitado, e não quando a ferida já abriu.
Dormdog
A Dormdog não trata escaras. Ela é a superfície que trabalha entre uma virada e outra: espuma de alta densidade, para o quadril e o ombro não afundarem até o piso, área para o cão ficar deitado de lado e esticado, e capa que sai inteira para lavar.
Mais que o dobro da densidade usada em camas de baixo custo. Sustenta os pontos ossudos sem "tocar o fundo", e mantém essa sustentação com o uso diário.
O corpo inteiro fica sobre a espuma, sem quadril ou ombro na borda. Na dúvida, meça o cão deitado de lado e compare com os 100 cm.
Escapou xixi? A capa sai inteira para lavar, e a espuma fica protegida. Pele seca é metade da prevenção.
Mantém o corpo afastado do chão duro e frio nas horas em que ele não consegue sair dali sozinho.
Relatos de tutores da Truelove Brasil
Depoimentos de compradores verificados — relatos originais de tutores.
Entre uma virada e outra, a superfície continua trabalhando por ele
Dormdog: a cama citada no pilar "a superfície". Espuma D50, 100 × 66 × 8 cm, capa lavável. 4,94/5 em 130 avaliações.

Referências científicas citadas nesta reportagem
- Swaim, S.F., Bradley, D.M., Vaughn, D.M., Powers, R.D., Hoffman, C.E. (1993). "O galgo como modelo para o estudo de úlceras de pressão" (título original: "The greyhound dog as a model for studying pressure ulcers"). Decubitus, 6:32–40.
- Olby, N.J., Moore, S.A., Brisson, B. et al. (2022). "Declaração de consenso do ACVIM sobre diagnóstico e manejo da extrusão aguda de disco intervertebral toracolombar em cães" (título original: "ACVIM consensus statement on diagnosis and management of acute canine thoracolumbar intervertebral disc extrusion"). Journal of Veterinary Internal Medicine, 36(5):1570–1596.
- Caraty, J., De Vreught, L., Cachon, T. et al. (2019). "Comparação dos diferentes apoios usados em medicina veterinária para a prevenção de escaras" (título original: "Comparison of the different supports used in veterinary medicine for pressure sore prevention"). Journal of Small Animal Practice, 60:623–630. (3 cadáveres, mapa de pressão por 4 horas)
