Num dia de 30 °C, a calçada onde seu cachorro pisa não está a 30 °C. Está bem mais quente — e a pata dele não tem sola de borracha.
Medições feitas por um centro de queimados nos EUA registraram asfalto a 59,5 °C ao meio-dia e ainda a 52 °C às seis da tarde. Na pele, 60 °C bastam para uma queimadura de segundo grau em cerca de 5 segundos.
Fonte: Kowal-Vern, A. et al. "'Streets of Fire' revisited: contact burns." Burns & Trauma, 2019.
O verão chega e, com ele, uma dúvida que quase todo tutor já teve parado na porta de casa, guia na mão: "será que o chão está quente demais?"
A dúvida faz sentido. O cachorro não reclama, não para, às vezes até puxa pra ir mais rápido. E a sensação na sua própria pele, de tênis, é de um dia quente, mas normal.
Só que o seu termômetro e o dele são diferentes. Você sente o ar. Ele sente o chão. E os cães têm a tendência bem documentada de esconder desconforto até ele ficar grande demais pra disfarçar.
Três pontos, um levando ao outro: por que a temperatura da previsão do tempo engana; o que o calor faz com o cão além da pata; e o que muda de verdade na rotina, do horário ao equipamento.
A temperatura da previsão do tempo não é a temperatura que a pata sente
A temperatura que aparece no celular é medida no ar, na sombra, a mais de um metro do chão. O asfalto é outra história: escuro, denso e exposto ao sol, ele absorve calor a manhã inteira.
E ele não devolve esse calor rápido. É por isso que o fim da tarde, quando o ar já parece mais fresco, ainda pode ser um horário ruim pra pata.
Título original: "'Streets of Fire' revisited: contact burns"
O estudo analisou 225 casos de queimadura por contato com o chão atendidos num centro de queimados do Arizona entre 2016 e 2018, e mediu a temperatura das superfícies. Em agosto de 2018, a mediana do asfalto foi de 59,5 °C ao meio-dia e de 52 °C às 18h. Os autores retomam a referência clássica de Moritz e Henriques (1947): a 60 °C, a pele sofre queimadura de segundo grau em cerca de 5 segundos. A 50 °C, em cerca de 15 minutos.
Dois cuidados de leitura. O Arizona tem um verão mais extremo que a maior parte do Brasil. E a almofadinha do cão é mais grossa que a pele humana usada nesses limites.
Mas a almofadinha não é sola de sapato. Ela é pele viva, cheia de terminações nervosas, e queima. Os veterinários atendem esse tipo de lesão todo verão, inclusive em cidades brasileiras com dias acima de 30 °C.
Encoste o dorso da mão no chão, onde o cão vai pisar, e conte até sete. Se você não aguentar, a pata dele também não deveria. É um teste simples e imperfeito, mas muito melhor que confiar na temperatura do celular.
E aqui a pergunta muda. Se o chão está quente a ponto de machucar a pata, o que esse mesmo calor está fazendo com o resto do corpo do cão durante o passeio?
Pata queimada é o sinal visível... o superaquecimento durante o exercício é o que mais leva cães ao veterinário no calor
Quando se fala em cachorro e calor, a imagem que vem à cabeça é o carro fechado. É um risco real, mas não é o mais frequente.
O cão resfria o corpo principalmente ofegando. As glândulas de suor das patas ajudam pouco. Num passeio em horário quente, ele produz calor com os músculos e recebe calor do chão ao mesmo tempo, e o sistema de resfriamento pode não dar conta.
Título original: "Dogs Don't Die Just in Hot Cars—Exertional Heat-Related Illness (Heatstroke) Is a Greater Threat to UK Dogs"
A partir dos prontuários de 905.543 cães atendidos em clínicas no Reino Unido, os pesquisadores identificaram 1.259 casos de doença por calor. Em 74,2% deles, o gatilho foi exercício, como passeio, corrida ou brincadeira. O ambiente quente explicou 12,9% dos casos, e o carro fechado, 5,2%. Cães braquicefálicos (focinho curto) tiveram mais chance de ter os três tipos.
O Reino Unido tem um clima bem mais ameno que o nosso. Mesmo lá, três em cada quatro casos de doença por calor começaram com o cão em movimento. Aqui, com mais dias quentes por ano, a lógica só fica mais forte.
Raças de focinho curto (buldogues, pug, shih-tzu), cães obesos, idosos, de pelagem escura ou muito densa, e cães jovens e animados que não diminuem o ritmo sozinhos. Nesses, o horário do passeio no verão importa ainda mais.
Como saber se a pata do cachorro queimou?
Os sinais mais comuns são mancar ou se recusar a andar logo depois do passeio, lamber as patas sem parar, almofadinha avermelhada, escurecida, com bolhas ou pele soltando.
Se aparecer algum desses sinais, lave com água fria (não gelada), evite novas caminhadas no quente e procure o veterinário. Queimadura em almofadinha costuma precisar de curativo e infecciona fácil.
Areia, pedra e grama sintética também esquentam?
Sim. Superfícies escuras, sintéticas ou de pedra acumulam calor ao sol. Terra e grama natural na sombra costumam ser as mais frescas. O teste do dorso da mão vale para qualquer superfície.
Molhar o cachorro antes do passeio resolve?
Ajuda o corpo a perder calor, mas não esfria o asfalto. A pata molhada continua em contato com um chão acima de 50 °C. A decisão mais eficaz continua sendo o horário.
Então a pergunta deixa de ser "pode ou não pode passear no calor". Passear continua sendo essencial. A questão é como tirar o cão do chão quente e do horário quente ao mesmo tempo, sem cancelar a rotina dele.
Mude primeiro o horário e, se não der, proteja o ponto de contato
É aqui que os dois primeiros pontos se encontram: o chão fica muito mais quente que o ar e continua quente no fim da tarde (primeiro ponto), e o esforço no calor é o que mais leva cães ao veterinário (segundo ponto).
A primeira resposta é o horário. Antes das 8h e depois que o sol se põe por completo, o asfalto já perdeu boa parte do calor e o ar está mais fresco. No verão, trocar o passeio das 17h pelo das 20h resolve boa parte do problema.
Nem sempre dá. Tem quem trabalhe em horário comercial, cão que precisa sair ao meio-dia, trajeto obrigatório pelo asfalto até chegar à praça. Nesses casos, entra a segunda camada: criar uma barreira entre a almofadinha e o chão, com uma bota de sola isolante.
A bota não esfria o corpo do cão. Ela só impede que a pata encoste no chão quente. Por isso é complemento do horário, não substituto.
Título original: "Ground force kinetic adaptations associated with canine boots"
Seis beagles saudáveis trotaram sobre uma plataforma de força com e sem botas. Tempo de apoio e força vertical máxima não mudaram. A taxa de carga no instante em que a pata toca o chão, porém, foi maior com as botas. Os autores concluem que as botas protegem do ambiente, mas mudam a forma como a pata pisa, e recomendam um período de adaptação.
Nos primeiros usos, quase todo cão anda "esquisito" de bota, levantando muito as patas. Isso é esperado, e o estudo acima mostra que a pisada realmente muda. Comece com poucos minutos dentro de casa e aumente aos poucos. Bota é para o trajeto quente, não para o dia inteiro.
A temperatura que importa no passeio de verão é a do chão, não a do ar. Primeiro se ajusta o horário. O que o horário não resolve, uma barreira na pata resolve.
Quer entender melhor o equipamento que fica entre a guia e o corpo do cão? Leia também Peitoral ou coleira: qual não machuca o seu cachorro no passeio.
O cão não avisa que o chão está quente. Ele só aguenta.
Muitos cães continuam andando mesmo com a pata ardendo, por empolgação ou porque estão com o tutor. A queimadura aparece horas depois, quando ele começa a lamber a pata ou a mancar. Num verão com cinco ou seis meses de dias quentes, cada passeio no horário errado é mais uma exposição.
Bota Truelove à Prova d'Água
Para o trajeto que não dá para evitar, a bota faz o que o terceiro ponto descreve: cria uma camada entre a pata e o asfalto quente, sem depender do horário.
Tira a almofadinha do contato direto com o asfalto no trecho mais quente do trajeto.
As quatro patas ficam protegidas e com a mesma altura, sem desequilibrar a pisada.
Calça sem forçar a pata e fica firme, o que ajuda na adaptação dos primeiros dias.
Tempo para fazer a adaptação com calma e trocar o tamanho, se precisar.
O chão quente não aparece na previsão do tempo
Bota Truelove à Prova d'Água: a barreira citada no ponto "o que muda na rotina", para o trajeto que o horário não resolve. 4,6/5 em 12 avaliações reais.
Ver a Bota TrueloveReferências científicas citadas nesta reportagem
- Kowal-Vern, A., Matthews, M.R., Richey, K.N., Ruiz, K., Peck, M., Jain, A., Foster, K.N. (2019). "'Ruas de fogo' revisitadas: queimaduras por contato" (título original: "'Streets of Fire' revisited: contact burns"). Burns & Trauma, 7, 32. (225 casos, Arizona, 2016–2018)
- Moritz, A.R., Henriques, F.C. (1947). "Estudos sobre lesão térmica II: a importância relativa do tempo e da temperatura da superfície na causa de queimaduras cutâneas" (título original: "Studies of Thermal Injury: II. The Relative Importance of Time and Surface Temperature in the Causation of Cutaneous Burns"). American Journal of Pathology, 23(5), 695–720. (limites de tempo × temperatura para queimadura, citados por Kowal-Vern et al.)
- Hall, E.J., Carter, A.J., O'Neill, D.G. (2020). "Cães não morrem só em carros quentes: a doença por calor ligada ao exercício é uma ameaça maior para os cães do Reino Unido" (título original: "Dogs Don't Die Just in Hot Cars—Exertional Heat-Related Illness (Heatstroke) Is a Greater Threat to UK Dogs"). Animals, 10(8), 1324. (n=905.543 cães; 1.259 casos)
- Shorter, K., Brown, W. (2019). "Adaptações cinéticas de força de reação do solo associadas ao uso de botas caninas" (título original: "Ground force kinetic adaptations associated with canine boots"). Biologia Futura, 70(2), 128–133. (n=6 cães)
