Cachorro não "pega friagem" por tomar chuva. O risco de um passeio molhado está no chão, na água parada que a chuva junta na calçada.
Num estudo com cães de Campina Grande (PB), 21,4% tinham anticorpos contra leptospirose, e morar em área com enchente aumentava em 2,3 vezes a chance de ter tido contato com a bactéria.
Fonte: Batista, C.S.A. et al. "Soroprevalência e fatores de risco para a leptospirose em cães de Campina Grande, Paraíba." Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, 2005.
Começa a chover na hora do passeio. O cachorro já está na porta, abanando o rabo, e você fica na dúvida: sair assim mesmo ou esperar passar?
Às vezes não passa. No verão brasileiro, tem semana em que chove todo fim de tarde. E um cão que fica dias sem sair gasta essa energia de outro jeito, geralmente em cima do sofá.
A boa notícia é que a chuva, sozinha, não é o problema. Um cão saudável aguenta bem uma garoa. O que muda num dia de chuva é o que o cão pisa, bebe e cheira pelo caminho.
São três pontos: por que a água não é a vilã; onde está o risco real no Brasil; e como passear molhado sem levar esse risco pra dentro de casa.
Não é a chuva que faz mal ao cachorro: é o que ela carrega pela rua
A ideia de que tomar chuva "dá gripe" vem de uma associação antiga entre frio e doença. Mas resfriado é causado por vírus, não por água.
Com cães, o que realmente aumenta na época de chuva é outra coisa. A leptospirose é uma doença bacteriana transmitida principalmente pela urina de ratos. A bactéria sobrevive em água parada e lama, e a chuva espalha essa água pela calçada, pelos bueiros e pelos terrenos.
Título original: "Increasing Incidence of Canine Leptospirosis in Switzerland"
Ao analisar dez anos de diagnósticos de leptospirose canina, os pesquisadores encontraram um padrão sazonal claro. Mais de 90% dos casos foram diagnosticados entre maio e outubro, os meses mais quentes e chuvosos por lá. A incidência acompanhou a temperatura e a chuva do período.
A estação é outra, mas o recado vale aqui. A doença sobe junto com calor e chuva ao mesmo tempo, que é justamente a combinação do verão brasileiro.
Isso não significa que todo passeio na chuva transmite leptospirose. O risco vem de contato com água contaminada: beber de poça, pisar e depois lamber a pata, entrar em alagado. Dá para reduzir bastante esse contato sem cancelar o passeio.
Se o risco está no que a chuva deixa pelo caminho, a pergunta passa a ser outra: quanto disso chega de fato aos cães brasileiros?
Evite as poças... no Brasil, um em cada cinco cães já teve contato com a bactéria
A leptospirose é endêmica no Brasil, ou seja, está sempre presente, com picos nas épocas de chuva e enchente. Alguns estudos brasileiros mediram quantos cães já tiveram contato com ela.
Foram analisadas amostras de sangue de 285 cães, coletadas durante uma campanha de vacinação antirrábica. 21,4% tinham anticorpos contra leptospira. Três fatores aumentaram a chance de contato: ter mais de um ano de idade (3 vezes), ser sem raça definida (4 vezes) e viver em área com ocorrência de enchente (2,3 vezes).
O dado de enchente é o que mais interessa ao tutor. O perigo não é a chuva que cai no cão, é a água que fica no chão depois.
As vacinas polivalentes (V8, V10) protegem contra alguns tipos de leptospira, não contra todos, e a proteção dura cerca de um ano. Manter o reforço em dia é a primeira linha de defesa. Evitar poças é a segunda.
Faz mal passear com cachorro na chuva?
Para um cão adulto e saudável, uma chuva fraca não faz mal por si só. O que pede atenção é deixar o cão beber de poças, entrar em água parada ou voltar para casa com as patas sujas de lama e lambê-las.
Em tempestade com raios ou rua alagada, o melhor é adiar.
Preciso secar a pata do cachorro depois do passeio?
Sim, e com atenção ao espaço entre os dedos. A umidade que fica ali por horas favorece irritações e dermatites de pele. Uma toalha seca na porta resolve. Se a pata voltar com lama, lave com água antes de secar.
Cachorro pequeno sente mais frio molhado?
Sente. Quanto menor o corpo, maior a superfície em relação ao volume, e mais rápido ele perde calor com o pelo molhado. Filhotes, idosos e cães de pelo curto merecem uma boa secada logo que chegam em casa.
Então o passeio na chuva pode continuar, desde que o cão não tenha contato com a água do chão. Em termos práticos, isso significa separar as patas da poça e deixar o tutor e o cão visíveis num dia mais escuro.
Proteja as patas do contato com a água do chão e deixe a pele do cão seca
É aqui que os dois primeiros pontos se encontram: a chuva em si não é o problema (primeiro ponto), mas a água parada que ela deixa no caminho carrega um risco real e comum no Brasil (segundo ponto).
Três hábitos resolvem a maior parte disso:
Trajeto: prefira calçadas mais altas e evite terrenos baldios, bueiros e alagados. Mantenha a guia curta perto de poças para o cão não beber.
Visibilidade: dia de chuva é mais escuro e o motorista vê pior. Coleira, peitoral ou guia com detalhes refletivos ajudam a ser visto.
Barreira nas patas: uma bota impermeável de cano alto mantém as patas secas e fora da lama. É especialmente útil em cães que lambem as patas assim que chegam em casa.
Título original: "Changes in Ground Reaction Forces and Center of Pressure Parameters of Paws When Wearing Dog Boots in Dogs"
Cinco labradoras caminharam e trotaram sobre uma plataforma de pressão, sem botas e com cinco combinações diferentes de botas. Antes do teste, cada cão teve ao menos uma semana para se acostumar com o calçado em sessões curtas. Toda combinação de botas aumentou a área de oscilação do centro de pressão ao caminhar, sinal de menor estabilidade, e a maior alteração apareceu com uma bota só.
Bota muda a pisada, e o cão precisa de alguns dias para se acostumar. Use sempre as quatro juntas, nunca uma só, e comece com passeios curtos. Bota não substitui a vacina nem a secagem das patas. Ela reduz o contato com a água do chão.
O cachorro pode, sim, sair na chuva. O risco não vem de cima, e sim da água parada no chão, e é nas patas que ele começa.
O calor do verão também traz riscos para as patas. Veja asfalto quente queima pata de cachorro?
A leptospirose no início parece "só um mal-estar"
Nos primeiros dias, a doença pode aparecer como apatia, febre, falta de apetite ou vômito, sinais fáceis de confundir com outra coisa. Ela pode afetar rins e fígado, e também pode ser transmitida para pessoas. Cão que ficou abatido nos dias seguintes a um passeio por área alagada deve ir ao veterinário, e vale contar esse detalhe na consulta.
Bota Truelove Cano Alto
O cano mais alto e a dupla tira no tornozelo impedem que a água e a lama da calçada entrem na bota, que é exatamente o contato que o segundo ponto mostrou ser o risco.
A pata fica seca durante o passeio, sem contato com a água do chão.
Impede que sujeira e respingos entrem pelo cano, que é por onde uma bota comum molha.
Mais aderência em piso molhado e liso, onde o cão escorrega com mais facilidade.
Visibilidade em dia escuro e as quatro patas iguais, sem desequilibrar a pisada.
A chuva pode continuar. As poças ficam para trás.
Bota Truelove Cano Alto: a barreira citada no ponto "o passeio molhado seguro". 4,8/5 em 13 avaliações reais. 90 dias para teste e troca.
Ver a Bota Cano AltoReferências científicas citadas nesta reportagem
- Batista, C.S.A., Alves, C.J., Azevedo, S.S., Vasconcellos, S.A., Morais, Z.M., Clementino, I.J., Alves, F.A.L., Lima, F.S., Araújo Neto, J.O. (2005). "Soroprevalência e fatores de risco para a leptospirose em cães de Campina Grande, Paraíba". Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia. doi:10.1590/S0102-09352005000800008 (n=285 cães)
- Major, A., Schweighauser, A., Francey, T. (2014). "Aumento da incidência de leptospirose canina na Suíça" (título original: "Increasing Incidence of Canine Leptospirosis in Switzerland"). International Journal of Environmental Research and Public Health, 11(7), 7242–7260. (10 anos de casos diagnosticados)
- Bieber, B., Reicher, B., Tichy, A., Bockstahler, B. (2022). "Mudanças nas forças de reação do solo e no centro de pressão das patas com o uso de botas em cães" (título original: "Changes in Ground Reaction Forces and Center of Pressure Parameters of Paws When Wearing Dog Boots in Dogs"). Frontiers in Veterinary Science, 9, 906277. (n=5 cães)
